É possível pensar em Educação para Mídia sem considerar os afetos?

Na segunda parte do episódio 5 do Diálogos ObservInfo, a professora aposentada da Universidade Federal Fluminense, Sylvia Moretzsohn, afirma que não adianta ter ações pedagógicas em torno da educação para a mídia sem pensar na disponibilidade emocional da recepção

Por Nathália Coelho

Existem quatro definições dadas pelo Dicionário Aurélio Digital para o substantivo masculino “afeto”. Duas delas se direcionam uma para a psicologia, como “o elemento básico da afetividade”; e a segunda, para a psiquiatria, como “estado emocional que acompanha qualquer representação mental”.

Por afetividade, o Aurélio afirma ser o “conjunto de fenômenos psíquicos que se manifestam sob a forma de emoções, sentimentos e paixões, acompanhados sempre da impressão de dor ou prazer, de satisfação ou insatisfação, de agrado ou desagrado, de alegria ou tristeza.”

Neste sentido, falar em afetos ultrapassa a ideia de senso comum que associa a palavra a carinho ou amor. Diz respeito ao movimento de afetar-se – entre polos positivos ou negativos – a partir do efeito que algo pode gerar em nós. Para a professora aposentada da Universidade Federal Fluminense, Sylvia Moretzsohn, é necessário pensar em afetos quando se propõe um combate à desinformação pelo caminho da Educação para Mídia, embora não seja uma tarefa fácil.

“Tenho receio em falar em afeto porque as pessoas no senso comum dizem: ‘afeto é tudo de bom. Afeto é coraçãozinho. Não, afeto é ódio. Afeto é o que nos afeta. São as coisas que nos afetam, são aquelas coisas que nos sensibilizam e que podem ser boas ou ruins. E o ódio é um dos principais afetos”, reitera.

Segundo Moretzsohn, estudos da psicologia social se dedicam a compreender o porquê de o ser humano – independentemente do quanto bem-informado seja – ter uma tendência geral de acreditar naquilo que o convém ou confirma suas convicções, além do entendimento sobre como tais convicções são formadas.

 A pesquisadora afirma ainda que caem por terra ações de Educação para Mídia baseadas no pressuposto “de que as pessoas se comportam de maneira absurda porque elas são desinformadas. Então a partir do momento que elas passam a ter informação elas vão estar esclarecidas e vão se comportar de uma outra forma”.

Para Moretzsohn, pensar os afetos requer, de um lado, compreender como um discurso desinformativo seduz o leitor. E por outro, se esse mesmo leitor está disposto a aprender ou, ao contrário, está consciente e bem com aquela desinformação. “Primeiro, você precisa saber. Você quer combater o que é falso? Ou você está perfeitamente satisfeito com a sua posição confortável naquela mentira, na qual você se criou?”, questiona a professora.

Além dos leitores, a pesquisadora também questiona: “os governos querem falar a verdade, em primeiro lugar? Em segundo lugar, essas empresas [de comunicação] – que ganham dinheiro com a disseminação de mentiras – vão tomar iniciativa de fazer alguma coisa?”

Para debater tais pontos, Moretzsohn cita a coluna de Vladimir Safatle, publicada em março de 2017, na Folha de São Paulo, cujo título é “Um fascista mora ao lado”. Lá, o filósofo afirma que é preciso abandonar a crença de um “iluminismo pueril” de que “o outro não pensa como eu porque ele não compreendeu bem a cadeia de argumentos”. Na verdade, ele escolheu outras formas de vida e afetos. “A questão, portanto, é desativar os afetos que empolgam essas pessoas”, ressalta Moretzsohn. 

Contudo, não é um caminho fácil, principalmente para sociedades orientadas por tradições iluministas dentro do próprio campo de pensamento humano (e em consequência do Jornalismo) que opõe razão e emoção, enaltecendo a primeira em detrimento da segunda, como se sentir fosse algo nocivo ou alienante. “Aí eu falo do gosto, da necessidade de perceber como é o processo da captura do gosto. E que é muito mais poderoso hoje no contexto da tecnologia digital”, ressalta.

Moretzsohn também indica uma entrevista com a física Joana Gonçalves de Sá, ao podcast Perguntar não Ofende, do Jornal português Expresso, em que Sá reflete sobre como se consome informação e qual é o impacto das tecnologias nas pessoas reais. “É muito engraçado porque o jornalista pergunta pra ela o que fazer diante de tal coisa ou como as pessoas se comportam e ela simplesmente diz “não sei”. Ela diz que uma das coisas fundamentais é essa: dizer não sei”, diz.

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